Correr a maratona

Alguém disse que a maratona é a prova que qualquer corredor que se preze deverá fazer, pelo menos, uma vez na vida. E é capaz de ter razão. É uma prova exigente em termos de esforço, marcada pelo ritmo que se impõe logo desde o inicio.

Mas o que me levou a participar na maratona não foi a afirmação enquanto corredor. Foi o desafio e a curiosidade de algo que me parecia inacessível e fora do meu alcance.

Ouvia com paixão o Cristiano Casalinho e o Pedro André a falarem da Maratona do Porto que fizeram em 2013 e das dificuldades porque passaram devido às cãibras musculares. No meio da admiração, assim começou a germinar o bichinho…

Em Dezembro do ano passado o meu amigo Paulo Oliveira noticiava a abertura das inscrições para a Maratona do Porto a preço reduzido, no valor de 15€. Sem pensar muito, inscrevi-me!

Assim comprometido e entre outras aventuras, lá me fui preparando para a Maratona do Porto.

No sábado passado, dia antes da prova, dormi até tarde. Depois, a muito custo, foi o arrumar das coisas para a prova. O tempo voava e eu a querer aproveitar todos os momentos para descansar e nada fazer.

O dia da prova chegou com a manhã fresca e com tempo tomei o lugar na partida. Valeu-me a dica do Luís Subtil para levar um saco de plástico para me agasalhar na espera até ser dado o tiro de partida. Pode até parecer inestético, mas que resulta, resulta. Vi muita gente a rapar frio e eu ali confortável.

Uma multidão de gente, e partida dada ao som de musica inspiradora despertaram em mim forte emoção com um nó na garganta, que por pouco não resultou em lágrimas no rosto. Mas a corrida tinha começado e havia que me concentrar.

Tinha lido nas informações da prova que iriam disponibilizar pacemakers, corredores experientes identificados com balões coloridos para quem tinha objectivos de tempo. Arrisquei em ir no balão mais lento, o das 4 horas, e em boa hora o fiz.

A maratona inicia-se com uma subida na Rua Júlio Dinis, que por cautela resolvi fazer devagar, com o balão branco das 4 horas a distanciar-se. Na rotunda da Boavista, o balão já ia uns duzentos metros à minha frente. Paulatinamente fui-me aproximando num ritmo na ordem de 5,20 minutos ao km, até encostar ao grupo.

No balão corria-se entre os 5,20 e 5,40 minutos ao km sem grandes oscilações. Depois de vários quilómetros dei a pensar para comigo, que o ritmo se calhar era demasiado forte, já que nos treinos que fiz antes, andava a correr na ordem dos 6 minutos ao km. Por outro lado sentia-me confortável e a respiração controlada e feita pelo nariz. Deixe-me ir na onda…

Os quilómetros foram passando, aproveitando todos os abastecimentos para repor líquidos. Apenas ao km 25 é que apanhei abastecimento sólido, dois pedaços de banana, que me ajudaram a repor energias, já que começava a ficar preocupado de estar tanto tempo sem comer. Logo no inicio da prova percebi ter cometido o erro de não ter levado umas barras e geis de reserva. Este erro poderia ter sido fatal para o desfecho da prova, indo directo de encontro ao “muro”. Felizmente isso não aconteceu, já que nos abastecimentos que se seguiram, pude-me alimentar com marmelada, bananas e bebida energética.

Com satisfação vi a minha mulher e a minha filha na Ribeira do Porto a acenar por mim o que me deu motivação extra.

As pernas e o corpo iam a responder bem e de forma controlada. Os africanos que via passar já no regresso corriam como se não fosse nada com eles. Fantástico!

Relutantemente determinado em quebrar o “muro” se ele aparecesse, ao km 36 decidi partir e deixar o balão que me tinha guiado para trás. Estava por minha conta e risco.

A esta altura eram inúmeros os corredores que já não corriam, caminhavam a custo, com alguns deles a arrastarem-se estrada fora.

A meta de terminar a maratona e com um tempo inferior a 4 horas começava a materializar-se.

Com o ego em alta, ia passando gente atrás de gente, ao mesmo tempo que forçava o ritmo. Nos metros finais, cheguei a correr bem abaixo dos 5 minutos ao km, com as pulsações a dispararem até às 180 bpm, valor próximo do meu máximo, sob a linha de meta.

Cruzei a meta exausto mas feliz, com o sentido de superação pelo facto de terminar a minha primeira maratona.

Ainda ofegante, passei pela banca da imperial e saborei com especial prazer, um fino. Nada melhor que rematar uma maratona desta forma!

Para terminar, uma palavra de agradecimento aos inúmeros amigos com que treino regularmente, que sem ajuda deles isto não teria sido possível.

Obrigado e Bem hajam!

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Enviado por Nuno Neves